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Aulas práticas de química na maternidade – dia 36

Aulas Práticas De Química Na Maternidade – Dia 36

Quando a professora falava que teríamos aulas práticas de química e nos levava para o laboratório era sempre muito divertido e havia uma expectativa enorme dos alunos. Afinal de contas, veríamos com nossos olhos as transformações químicas que os elementos estudados na teoria podem produzir na prática. Normalmente, para segurança dos alunos, era a professora que manuseava as substâncias colocava um líquido e dependendo do outro elemento adicionado poderia haver uma explosão. Outras vezes, o segundo líquido acrescentado a experiência pode resultar na mudança de cor ou em nenhuma reação específica.

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Há dias que eu me imagino ser como um tubo de ensaio e me sinto sujeita aos líquidos e substâncias adicionadas e misturadas. A quantidade da “substância” teimosia ou birra não precisa ser muito grande em determinados dias para gerarem uma explosão. Contudo, há dias que a substância até pode ser a mesma, mas dentro do meu frasco existe outra que literalmente neutraliza e consigo lidar com a situação de uma forma totalmente racional que neutraliza todo elemento químico.

A quarentena, de fato, tem trazido muitos sentimentos e hormônios à tona. Estou lendo o livro “A coragem de ser imperfeitoda pesquisadora e PHD em serviço social, Brené Brown que fala basicamente sobre vulnerabilidade (pelo menos até na parte que estou). Em seus 12 anos de estudos constatou que existem 12 áreas da vergonha: aparência e imagem corporal, dinheiro e trabalho, maternidade e paternidade, família, criação de filho, saúde física e mental, vícios, sexo, velhice, religião, traumas e estigmas ou rótulos. Segundo ela:

 

“O primeiro gatilho para as mulheres, em termos de força e universalidade, é a primeira área: nossa aparência. […] nós sentimos vergonha de não sermos magras, jovens ou bonitas o bastante. Curiosamente, em termos de gatilhos da vergonha a maternidade está em segundo lugar. E ninguém precisa ser mãe para experimentar a vergonha da maternidade. A sociedade enxerga a feminilidade e a maternidade como laços insolúveis; dessa forma ela ocupa em relação ao papel como mãe ou mãe em potencial. […] A vergonha da maternidade é onipresente —  é como um direito de nascença das mulheres”. (P. 66- 67)

 

Quando a experiência dos sentimentos não sai exatamente como eu quero ou desejo que aconteça, quando há uma explosão desnecessária, confesso que sinto vergonha. Vergonha porque sei a maneira que deveria ter agido e reagi de uma forma totalmente fora dos meus padrões. 

Quando vou para as redes sociais e vejo a foto da mãe com seus filhos plenos de pijamas iguais no sofá assistindo mais um filme, eu me culpo por não me dedicar o suficiente para meus filhos. Quando vejo a outra mãe sentada fazendo tarefa com seus filhos enquanto eu sei que estou tentando equilibrar minhas atividades profissionais e ensinar/corrigir as tarefas do meu filho “ao mesmo tempo” sinto vergonha de mim mesma, porque sei que não gostaria de agir dessa forma. São substâncias nocivas que assim como nas aulas práticas de químicas podem gerar uma reação explosiva. Precisamos cuidar com as substâncias adicionadas ao nosso tubo de ensaio.

Ao mesmo tempo que o home office me aproximou das crianças por estar no mesmo ambiente que elas durante 24 horas por dia, sete dias na semana, não estamos tão próximas assim. Não sei se você me entende. Mas, fato é que, dividir o mesmo teto não nos aproxima quando deixamos que as barreiras da vergonha nos impeçam de reconhecer nossas limitações para nossos filhos, pedir perdão quando necessário e ainda sermos transparentes e vulneráveis, demonstrando nossas fraquezas diante das circunstâncias. 

A vulnerabilidade é uma das maneiras de conquistarmos nossos filhos, é aquele elemento químico das aulas práticas de química que traz a neutralidade. Tem o poder de mudar a cor da substância obtida, trazendo leveza, harmonia e empatia por parte das crianças. A vergonha de não sermos mães perfeitas (porque de fato não somos) perante a sociedade e nossos filhos só será neutralizada e perderá sua força sobre nossas vidas quando falarmos sobre ela abertamente.

Brown afirma:

 “Quando sentimos vergonha, estamos mais inclinados a nos proteger culpando algo ou alguém, justificando nosso erro, oferecendo uma desculpa esfarrapada ou nos escondendo. […] Quando nos desculpamos por alguma coisa que fizemos, reparamos um erro ou mudamos nosso comportamento que não condiz com nossos valores, a culpa —  e não a vergonha —  é geralmente a força propulsora. Nós nos sentimos culpados quando comparamos algo que fizemos ou deixamos de fazer com nossos padrões de excelência e vemos que não combinam. É uma sensação desconfortável, mas pode ser benéfica. O desconforto psicológico, que é similar à dissonância cognitiva, é o que motiva uma mudança significativa.” P. 55

 

Ao sermos humildes e demonstrarmos nossa vulnerabilidade para nossos filhos todos crescerão como seres humanos. Nós porque não estaremos nos protegendo e nem nos escondendo de algo que, tanto nós quanto eles, sabemos que está errado. Eles podem assimilar que há aceitação quando você reconhece seus erros perante os outros. Tem a oportunidade pode pedir e aceitar o perdão. Desfrutar da reconciliação. 

Assim como um tubo de ensaio pode receber várias substâncias que geram diferentes reações, assim somos nós seres humanos. As aulas práticas de química nos ensinam que há um novo aprendizado atrás de cada experiência, ela pode ser boa ou não, mas de qualquer forma teremos que limpar a bagunça depois dela, não é mesmo?. 

 

Post Series: Diário de uma mãe em quarentena

Quarta-feira, 22 de abril de 2020

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