Para alguns pode parecer estranho falar que pode haver violência obstétrica, algumas mulheres só descobrem que passaram por isso após ter dado à luz aos seus filhos e relatarem seu parto para outras mulheres. Infelizmente, ainda é uma realidade nos hospitais. A melhor arma para acabar com isso é se apossar das informações e não admitir que isso aconteça com você.

O parto é um momento único e extremamente marcante na vida de uma mulher. Ao parir o filho, está parindo aquela que será a cuidadora e alimentadora daquele novo ser, portanto, ela merece ser tratada com carinho e respeito, porque tudo que ela ouvir nessa hora ficará guardado para sempre em seu coração.

Foi assim comigo, sempre achei que os meus partos foram lindos e realmente foram. Participei ativamente deles, senti cada contração, cada dor e cada puxo e quando eles nasceram, estar com eles no braço foi o momento mais maravilhoso do mundo, inesquecível. Mas as coisas que ouvi, os procedimentos que passei, sendo que nem todos eram realmente necessários, isso ficarão marcados para sempre na memória e em cada vez que repetir o relato de um dos partos. Por isso, quero compartilhar quais são algumas das maneiras que pode-se sofrer violência obstétrica, para que outras mulheres não passem pelo que passei.

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1) O que é violência obstétrica?

A violência institucional na atenção obstétrica, também chamada de violência obstétrica, é a violência cometida contra a mulher grávida e sua família em instituições de saúde, no momento do atendimento pré-natal, ao parto ou aborto. Pode ser verbal, física, psicológica ou mesmo sexual e se expressa de diversas maneiras, às vezes explícitas, às vezes veladas. Como outras formas de violência contra a mulher, a violência obstétrica é fortemente condicionada por preconceitos de gênero (sexismo). Alguns exemplos desse tipo de violência: ofender, humilhar ou xingar a mulher, fazer piadas ou comentários desrespeitosos a respeito de seu corpo, tratar a mulher ou seu/sua acompanhante de modo grosseiro, imobilizar a mulher, negar atendimento, realizar intervenções sem antes explicar à mulher a necessidade do procedimento, prestar assistência sem observação das melhores evidências científicas disponíveis, afastar o recém-nascido da mulher após o parto, entre outros. Muitas vezes, o modo de organização das instituições de saúde constitui uma forma de violência, ao impor protocolos de atendimento padronizados a todas as mulheres, por vezes sem qualquer conhecimento científico que os sustente.

 

2) Quais são as formas mais comuns de violência obstétrica?

2.1. Antes do parto:

– Pré natal com informações insuficientes ou questionáveis sobre o andamento da gestação.- Falsas indicações para cirurgia cesariana- Falta de informações sobre a fisiologia do parto normal e riscos de cirurgias cesarianas- Ausência ou má qualidade de informações sobre como a mulher deve proceder durante o início do trabalho de parto- Impossibilidade de a mulher escolher previamente o local de parto

 

2.2. Durante o parto:

Violência física: ações que incidam sobre o corpo da mulher, que interfiram, causem dor ou dano físico (de grau leve a intenso), sem recomendação baseada em evidências científicas. Exemplos:- tapas- empurrões- aplicação de soro com ocitocina sintética a fim de contrair artificialmente o útero- privação de movimentos- falta de liberdade para ingerir líquidos e alimentos – privação de métodos naturais para alívio da dor- privação de anestesia quando necessária e reivindicada pela mulher- forçar membros- toques indesejados e/ou toques realizados por diferentes pessoas- descolamento de membrana sem consentimento da mulher- ruptura artificial da bolsa sem consentimento da mulher- obrigar a mulher a ficar deitada ou em outra posição que ela julgue dolorosa durante o trabalho de parto e/ou nascimento do bebê- manobra de Kristeller (quando o profissional de saúde sobe em cima da barriga da gestante e a força para baixo)- amarrar as pernas na perneira- episiotomia (corte ou “pique” na vagina)- “ponto do marido”, ou sutura da episiotomia maior que a necessária para fechar o corte a fim de estreitar a vagina e oferecer maior prazer sexual ao parceiro- uso de fórceps sem indicação clínica, fórceps didático;- cesarianas sem real indicação clínica e por conveniência do médico;- submeter a mulher a qualquer procedimento desnecessário sem seu conhecimento, sem esclarecimento de riscos e complicações, ou sem seu consentimento;

 

Violência psicológica: toda ação verbal ou comportamental que cause na mulher sentimentos de inferioridade, vulnerabilidade, abandono, instabilidade emocional, medo, acuação, insegurança, dissuação, ludibriamento, alienação, perda de integridade, dignidade e prestígio. Exemplos:- todo tipo de humilhação, tortura psicológica, ameaças, chacotas, ofensas,- piadas sobre obesidade, pêlos pubianos, estrias, evacuação;- recriminar o choro, o grito ou as conversas da mãe com seu bebê;- recriminar a expressão de sua religiosidade;- discriminação étnico racial;- discriminação econômico-social;- discriminação referente à idade, profissão, orientação sexual da mãe;- utilizar de tratamento infantilizador, ou outro que inferiorize a mulher;- “Na hora de fazer, você gostou, né?”- “Não grita, se não ninguém vai te atender.”- “Obedece, se não você vai matar o seu bebê, você quer matar o seu bebê?”- “Reclama agora, mas ano que vem está aqui de novo!”- “Pára de chorar, se não vou te furar todinha.”- “Você vai parir deitada porque você não é índia.”- “Faz força, você é muito mole! Preguiçosa!”- impedir a entrada ou permanência do acompanhante de livre escolha da mulher;- restringir a escolha do acompanhante;- exagerar no prognóstico;- ludibriar a mulher para agendamento da cesárea;- coagir a mulher quando essa não aceita o agendamento da cesárea;- coagir a mulher quando essa quer buscar uma segunda opinião;- se recusar a informar a mulher sobre seu estado de saúde, ou se recusar a informar de maneira clara, acessível e respeitosa;- se recusar a informar a mulher sobre o estado de saúde de seu bebê;- separar o bebê saudável de sua mãe sem necessidade clínica;- outras

 

Violência institucional: ações ou formas de organização que dificultem, retardem ou impeçam o acesso da mulher aos seus direitos constituídos, sejam estes ações ou serviços, de natureza pública ou privada. Exemplos:- Falta de vagas em hospitais e incentivar “peregrinação” por internação- Omissão no encaminhamento adequado da mulher diante da falta de vagas;- Impedimento da entrada de um acompanhante escolhido pela mulher na instituição de saúde- Falta de adequação para a entrada e permanência de um acompanhante de livre escolha “Ô, mãezinha, aqui não tem estrutura, se você quer luxo vai lá e paga particular.”, “A enfermaria tem muitas pacientes e não tem privacidade, não pode entrar acompanhante homem.”; – Falta de capacitação das redes de atendimento a mulheres vítimas de violência para acolher denúncias de violência obstétrica e tratar de suas especificidades;- Tolerância do Estado às violências contra as mulheres na assistência ao parto, morosidade na fiscalização dos serviços de atenção ao parto e nascimento; – Descumprimento da legislação vigente;- Oferecer internação em ala particular (em hospitais conveniados ao SUS) quando a mulher exige direitos garantidos por lei no serviço público;

 

Violência sexual: ações que se referem ao controle da sexualidade da mulher através do abuso da posição de poder e confiança; como assédio sexual, flerte; “cantadas”, contatos físicos forçados, convites impertinentes, insinuações, incitações sexuais; mutilação da vagina. Exemplos:- exames de toque desnecessários, realizados por uma pessoa (ou várias) sem a devida apresentação, e sem esclarecimento sobre a necessidade do exame;- “ponto do marido”, ponto profundo com finalidade de deixar a vagina mais apertada e preservar o prazer masculino; “Vou deixar a senhora bem apertadinha, para o seu marido não vir aqui reclamar comigo.”;- comentários referentes à relação sexual durante o exame de toque; “Assim dói? O do seu marido não é maior?”- comentários sexistas ou elogios atrevidos sobre a aparência física da mulher;- insinuações sexuais inconvenientes e ofensivas;- ameaças diante de manifestação de recusa, como de chantagem, intimidação, coerção;- comentários humilhantes ou chacotas referentes à prática sexual que provocaram a gravidez, “Ano que vem você tá aqui de novo, vocês são tudo assim.”;- laqueaduras (esterilização feminina) sem aviso prévio, sem esclarecimento e sem consentimento;

Fonte: Parto do princípio

Mediante a tudo isso, eu hoje percebo como é extremamente importante conhecer todas as implicações que pode ocorrer na hora do nascimento, o como é importante que o parceiro tenha os mesmos conhecimentos, para lutar pelos direitos da parturiente, reconheço também como a função da doula é divina e como ela traz segurança para garantir que os direitos da mulher e do bebê prevaleçam, reconheço também que ainda temos muito chão pela frente na questão da conscientização e de espalhar o conhecimento para mais mulheres. Além disso tudo, reconheço a importância de um plano de parto, que em breve iremos falar um pouco melhor sobre isso!

Mãe do Cauê e da Catarina 🙂





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