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Síndrome de Tourette: guia de sinais e apoio

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Receber a notícia de que seu filho pode ter a Síndrome de Tourette é como atravessar um portal para um mundo novo, desconhecido e, muitas vezes, assustador. O diagnóstico não é apenas uma palavra no papel; é o início de uma jornada de descobertas, adaptações e, acima de tudo, de um amor que se fortalece na busca por respostas. Se você está aqui, é porque o medo do preconceito e a incerteza sobre o futuro do seu pequeno apertam o peito. Saiba que você não está sozinha e que o conhecimento é o primeiro passo para transformar o medo em proteção.

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O que é a Síndrome de Tourette e como identificar?

A Síndrome de Tourette é um distúrbio neurobiológico do desenvolvimento que se manifesta através de tiques motores e vocais. Para uma mãe que observa seu filho, a identificação começa nos pequenos detalhes. Muitas vezes, o que parece um “vício” ou uma “mania” é, na verdade, um tique involuntário.

Para identificar a síndrome, a medicina observa a persistência desses tiques por um período superior a doze meses. Os sinais costumam aparecer entre os 2 e 15 anos de idade, com uma média em torno dos 6 anos. É importante observar se a criança apresenta:

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  1. Tiques Motores: Piscar de olhos repetitivo, caretas faciais, sacudir a cabeça ou dar de ombros.
  2. Tiques Vocais: Pigarrar constante, fungar, gritar ou repetir palavras de forma súbita.

Identificar precocemente não serve para rotular, mas para oferecer ao cérebro do seu filho o suporte necessário para que ele se desenvolva com dignidade e menos sofrimento.

É Tourette ou TOC? Entenda as diferenças

Para uma mãe que observa o filho repetindo movimentos ou sons, a linha entre a Síndrome de Tourette e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) pode parecer muito tênue. De fato, a ciência nos mostra que essas duas condições são “primas próximas”, pois ambas envolvem circuitos cerebrais nos gânglios da base. No entanto, entender o que motiva o comportamento é a chave para o suporte correto.

O “Porquê” por trás do movimento

A principal diferença reside na intenção e na sensação que precede o ato:

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  • No TOC (Obsessão e Compulsão): O comportamento é motivado por um pensamento intrusivo (medo de germes, medo de que algo ruim aconteça). A criança realiza o ritual (como lavar as mãos ou organizar objetos) para aliviar uma ansiedade mental. Ou seja, existe uma lógica — ainda que ansiosa — por trás do ato.
  • Na Síndrome de Tourette (Tiques): O tique é precedido por uma “sensação premonitória”, descrita por muitos como uma coceira interna ou uma pressão que precisa ser liberada. É comparável a um espirro: você sente que ele está chegando e, embora consiga segurar por alguns segundos, a descarga é inevitável e puramente física.

A Coexistência: O “Efeito Combo”

É fundamental saber que não é preciso escolher um ou outro. Segundo dados da International OCD Foundation, cerca de 30% a 60% das pessoas com Tourette também apresentam sintomas de TOC. Quando isso acontece, os médicos chamam de “TOC tique-relacionado”.

Nesses casos, a criança pode sentir a necessidade de repetir um tique motor (como tocar na mesa) até que ela sinta que o movimento foi feito “da maneira certa”. Para você, mãe, isso significa que o plano de apoio deve ser personalizado, tratando tanto a descarga motora quanto a ansiedade que a acompanha.

O que leva a pessoa a ter Síndrome de Tourette?

Uma das maiores angústias maternas é a culpa. “Será que eu fiz algo errado na gestação?”, “Será que é o ambiente?”. Deixe a culpa de lado: a ciência explica que o que leva a pessoa a ter a síndrome é uma combinação complexa de fatores genéticos e neuroquímicos.

Estudos indicam que há uma desregulação nos circuitos cerebrais que conectam os gânglios da base ao córtex frontal. Esses circuitos utilizam neurotransmissores como a dopamina e a serotonina para controlar os movimentos e o comportamento. Quando há um desequilíbrio nessa comunicação, os “filtros” do cérebro falham, permitindo que o tique escape de forma involuntária. Portanto, a Tourette é uma condição biológica, ou seja, não é falta de educação, não é birra e muito menos falha na criação.

O medo do preconceito: Como blindar seu filho e a si mesma

A dor mais latente que você carrega agora provavelmente é o medo do olhar alheio. O medo de que seu filho seja excluído na escola ou alvo de piadas. Esse sentimento é legítimo e nasce do desejo de proteção.

Para combater o preconceito, a estratégia mais eficaz é a educação. Quando as pessoas ao redor — professores, familiares e amigos — entendem que os tiques são como um espirro (impossíveis de segurar por muito tempo), a empatia toma o lugar do julgamento. Blindar seu filho não significa escondê-lo, mas sim dar a ele a narrativa da sua própria história, ensinando-o que a Tourette é apenas uma característica dele, não a sua definição total.

Quem tem Tourette tem TDAH?

Uma das dúvidas mais frequentes no consultório neuropediátrico, e que tira o sono de muitas mães, é a relação entre a Síndrome de Tourette e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A resposta curta é: não necessariamente, mas a probabilidade é alta.

De acordo com dados da Tourette Association of America, aproximadamente 60% a 80% das crianças diagnosticadas com Tourette apresentam pelo menos uma condição coexistente. O TDAH é, de longe, a comorbidade mais comum. Isso acontece porque ambas as condições partilham caminhos neurobiológicos semelhantes no cérebro, especificamente na regulação da dopamina e nas funções executivas localizadas no lobo frontal.

Para si, mamãe, entender isto é crucial para não sobrecarregar a criança. Muitas vezes, a dificuldade que o seu filho tem em concentrar-se na escola não é “preguiça”, mas sim o cérebro dele a gastar uma energia imensa para tentar suprimir os tiques, restando pouco recurso cognitivo para a matéria da aula. Identificar se existe TDAH associado permite um tratamento multimodal que melhora a qualidade de vida e a autoestima da criança.

Quais são os 4 tipos de manifestações na Tourette?

Embora o diagnóstico seja único, as manifestações dividem-se em quatro categorias principais que ajudam os médicos e as famílias a entenderem o quadro clínico. Compreender estas divisões ajuda a desmistificar a ideia de que Tourette é apenas “dizer palavrões” (um sintoma raro chamado coprolalia que afeta apenas cerca de 10% a 15% dos pacientes).

1. Tiques motores simples

Estes são geralmente os primeiros a aparecer. Envolvem apenas um grupo muscular e são de duração muito curta. Exemplos comuns incluem:

  • Piscar os olhos repetidamente;
  • Fazer caretas ou torcer o nariz;
  • Encolher os ombros de forma súbita.

2. Tiques motores complexos

Estes parecem movimentos propositados, mas são involuntários. Envolvem vários grupos musculares e podem incluir:

  • Tocar em objetos ou em outras pessoas;
  • Saltar, girar ou bater com os pés;
  • Gestos obscenos involuntários (copropraxia).

3. Tiques vocais simples

Sons rápidos e sem significado linguístico, muitas vezes confundidos com alergias ou tiques nervosos:

  • Pigarrar ou tossir;
  • Fungar ou estalar a língua;
  • Ladrar ou soltar gritos curtos.

4. Tiques vocais complexos

Envolvem palavras, frases ou variações na entonação da fala:

  • Repetir as próprias palavras (palilalia);
  • Repetir o que os outros dizem (ecolalia);
  • Uso involuntário de palavras socialmente inadequadas (coprolalia).

Quanto tempo dura a Síndrome de Tourette?

A pergunta “isto vai passar?” é a que mais ecoa no coração de uma mãe. A Síndrome de Tourette é considerada uma condição crónica, mas o seu curso é variável e, em muitos casos, bastante esperançoso.

Geralmente, os tiques surgem entre os 5 e 7 anos, atingindo o seu pico de gravidade e frequência entre os 10 e 12 anos. Este período coincide com a pré-adolescência, uma fase já naturalmente desafiante em termos sociais. No entanto, a boa notícia é que a maioria dos jovens apresenta uma melhoria acentuada no final da adolescência.

Estatísticas mostram que cerca de um terço das crianças vê os tiques desaparecerem completamente na idade adulta; outro terço apresenta uma redução drástica, tornando os tiques quase impercetíveis; e o terço restante continua com sintomas na vida adulta, mas geralmente aprende estratégias de manejo que permitem uma vida plena e funcional. O importante é saber que a Tourette não impede o seu filho de ser um adulto de sucesso, de ter uma família e de realizar os seus sonhos.

Estratégias de sobrevivência na escola e na sociedade

O ambiente escolar é, muitas vezes, o lugar onde a Síndrome de Tourette se torna mais visível e, consequentemente, onde o medo do preconceito mais assombra. Para uma criança com Tourette, a sala de aula exige um esforço hercúleo: ela precisa processar o conteúdo pedagógico enquanto seu cérebro luta para suprimir movimentos e sons involuntários.

O papel da escola no manejo dos tiques

A primeira estratégia para proteger seu filho é a parceria com a instituição. A escola precisa entender que os tiques aumentam com a ansiedade e o estresse. Portanto, punir uma criança por “fazer barulho” ou “se mexer demais” é não apenas injusto, mas contraproducente, pois o estresse da punição gera mais tiques.

Algumas adaptações simples fazem toda a diferença:

  • Tempo extra em avaliações: O esforço para controlar os tiques consome energia cognitiva.
  • Lugar estratégico na sala: Sentar em locais onde a criança se sinta menos “observada” pode diminuir a ansiedade social.
  • Intervalos de “liberação”: Permitir que a criança saia da sala por alguns minutos para soltar os tiques em um ambiente privado (como o banheiro ou a enfermaria) ajuda a reduzir a tensão acumulada.

Educando os colegas

O bullying geralmente nasce do desconhecido. Quando a turma entende que o colega tem uma condição neurológica — e que os tiques são como um “soluço do cérebro” — o mistério acaba e a empatia floresce. Muitas mães optam por fazer uma palestra simples ou levar materiais educativos para a sala, transformando a diferença em uma oportunidade de aprendizado sobre diversidade humana.

O poder do exemplo: filmes para entender e inspirar

O entretenimento é uma porta aberta para a empatia. Quando vemos histórias reais ou personagens bem construídos, o “medo do desconhecido” perde a força. Abaixo, selecionei obras essenciais para você assistir e compartilhar com quem precisa entender melhor a rotina de quem convive com a Síndrome de Tourette.

Séries e Documentários

  • Baylen: Uma Vida Sem Filtro (Série – Max/Discovery): Este lançamento recente acompanha a vida de Baylen Dupree, uma jovem que se tornou um fenômeno no TikTok ao mostrar sua rotina com tiques severos. A série é incrível porque mostra não apenas os desafios dela, mas como a família e o namorado lidam com a situação com leveza, humor e muito apoio. É um sopro de esperança para mães que temem o futuro social de seus filhos.
  • Eu Tenho Tourette, Mas Tourette Não Me Tem (Documentário – HBO): Um clássico necessário. Ele foca em crianças e adolescentes, dando voz a eles. É ideal para mães de crianças recém-diagnosticadas, pois mostra a perspectiva dos pequenos sobre seus próprios tiques e como eles desejam ser tratados pela sociedade.
  • Os Inamoráveis (Série/Reality – TLC): Embora a série aborde diversas condições, há episódios emocionantes focados em jovens com a Síndrome de Tourette navegando pelo mundo dos encontros e da vida adulta, provando que não é um impeditivo para conexões profundas.

Filmes para a sua Lista

O Primeiro da Classe (Front of the Class) - Sindrome de Tourrete - Blog mamae e cia

  • O Primeiro da Classe (Front of the Class): Baseado na história real de Brad Cohen, este filme é o “padrão ouro” para famílias com Tourette. Ele narra a jornada de um homem que, apesar dos tiques severos e da descrença de muitos, luta para realizar seu sonho de se tornar professor. É uma lição sobre resiliência e sobre não deixar o diagnóstico definir seu destino.
  • Vincent quer Ver o Mar (Vincent will Meer): Um filme alemão que aborda a Síndrome de Tourette de forma crua, mas com toques de humor e sensibilidade, mostrando a busca de um jovem por autonomia.
  • The Road Within: Um remake americano que explora a amizade e os desafios de jovens com diferentes condições, incluindo a Tourette, em uma viagem de autodescoberta.
  • I Swear (Eu Juro – Lançamento 2026): Um drama biográfico potente (baseado na vida de John Davidson) que explora a jornada de aceitação e os desafios de crescer em uma sociedade que nem sempre está pronta para o diferente. A trilha sonora e a sensibilidade do roteiro são pontos altos para quem busca profundidade.
  • Hichki (A Reação – Disponível em plataformas de streaming): Um remake indiano inspirador de “O Primeiro da Classe”. Nesta versão, uma professora com Síndrome de Tourette luta para provar seu valor em uma escola de elite. É vibrante, emocionante e reforça a ideia de que a Tourette pode ser uma aliada na construção de uma resiliência inabalável.
  • Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn): Para quem quer ver a síndrome sob a ótica da vida adulta e do talento. Edward Norton interpreta um detetive com Tourette cujos tiques e a mente acelerada o ajudam a resolver crimes complexos. É uma ótima pedida para desmistificar a síndrome em ambientes profissionais.

Às vezes, as palavras técnicas não alcançam o lugar onde a emoção reside. É por isso que o cinema é uma ferramenta pedagógica e terapêutica tão poderosa. Assistir a histórias de pessoas que venceram as barreiras da Síndrome de Tourette ajuda a mãe a visualizar um futuro brilhante para seu filho.

O diagnóstico é apenas uma parte da história

Chegar ao fim deste guia não significa o fim das suas dúvidas, mas espero que signifique o fim da sua solidão. A Síndrome de Tourette traz desafios, é verdade, mas ela também revela crianças incrivelmente resilientes, criativas e sensíveis.

O medo do preconceito diminui à medida que aumentamos o volume da nossa voz e da nossa informação. Seu filho não é a Tourette; ele é uma criança com sonhos, talentos e um potencial infinito que por acaso convive com tiques. Como mãe, seu maior papel é ser o porto seguro onde ele não precisa se esconder.

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Eu sei que o peso do diagnóstico pode ser solitário, mas você não precisa carregar tudo sozinha. Qual dessas informações trouxe mais alívio para o seu coração hoje? Deixe seu comentário abaixo e vamos transformar esse espaço em uma rede de apoio e trocas reais!

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